O objeto deste texto é o capítulo 8 do livro escrito por Bart
Ehrman intitulado “Como Jesus Se Tornou Deus”. Bart Ehrman,
intelectual e acadêmico, tem sido um dos mais populares críticos da
confiabilidade histórica do cristianismo e manuscritológica do Novo Testamento (não
só em termos técnicos, mas também no sentido de atingir o próprio
conteúdo da fé cristã). Este é o caso da obra aqui tratada, na
qual Ehrman questiona historicamente a visão ortodoxa de Jesus
Cristo como Deus preexistente que se encarnou tornando-se também
humano. O capítulo aqui analisado é o oitavo e chama-se “Depois
do Novo Testamento” e, basicamente, é onde o autor aborda as
disputas cristológicas dos séculos II e III.
As explanações feitas por Bart acerca dos diversos grupos e das
concepções contrastantes de se entender Cristo que defendiam –
Ebionismo, Adocionismo Romano, Docetismo, Marcionismo, Gnosticismo
Cristão, Modalismo, etc. – são bastante úteis. No entanto, já
nisso pode ser feita uma observação. como apontado por Trent Horn há exagero no argumento de que os bispos de Roma do século III
aprovavam a concepção modalista. O exemplo do bispo Calisto usado
por Ehrman apresenta falhas históricas: a única fonte para a
acusação de que Calisto era modalista é Hipólito – conhecido
opositor do bispo de Roma. A mais grave falha, porém, é que o bispo
Calisto de Roma foi quem excomungou Sabélio – um dos principais
proponentes do Modalismo. Eis a contradição. Bart Ehrman, no
mínimo, precisaria tratar devidamente dessas questões para
sustentar seu ponto.
Além disso, há outras considerações que podemos fazer sobre este
capítulo. Um dos argumentos de Ehrman é que havia muitas visões
diferentes circulando entre os cristãos dos primeiros séculos, não
somente acerca de Cristo como também sobre Deus, a Criação e a
Bíblia Hebraica. Um dos motivos para tanto seria a inexistência do
cânon neotestamentário, esse cânon, no entanto, foi estabelecido
pelo grupo vencedor do debate. O que ele quer dizer é que foi uma questão de poder: se outro grupo
fosse o vencedor então haveria outro Novo Testamento e a assim
sugere que as crenças cristãs, hoje tão sólidas, são basicamente uma
questão de processo histórico, não de verdade.
Concordamos que um dos motivos para diferentes visões no seio do
cristianismo primitivo era a ausência de um cânon neotestamentário,
porém discordamos do tom relativista dado por Ehrman à formação
do cânon do N.T. Não foi meramente uma questão de quem venceu dita
as regras, houve critérios bem razoáveis e legítimos para o
reconhecimento dos livros dotados de autoridade. “Logo no final do
primeiro século e início do segundo (até 120 d.C.), boa parte dos
livros do Novo Testamento já era conhecida, citada e até
reverenciada como autoritativa pelos primeiros escritos cristãos que
chegaram até nós”¹.
Além do reconhecimento geral, o critério de autoria apostólica
também foi muito importante no processo. Em suma, fazemos coro ao
dito por F. F. Bruce:
Uma coisa precisa ser afirmada
com toda ênfase: os livros do Novo Testamento não se tornaram
escritos revestidos de autoridade para a igreja porque foram
formalmente incluídos em uma lista canônica; pelo contrário, a
igreja incluiu-os no cânon porque já os considerava divinamente
inspirados, reconhecendo neles o valor inato e, em geral, a
autoridade apostólica, direta ou indireta. […]. Esses concílios
não objetivavam impor algo novo às comunidades cristãs, pelo
contrário, o intuito era sistematizar o que já era uma prática
comum. (BRUCE. F. F. Merece Confiança o Novo Testamento? Edições
Vida Nova, 3ª Edição Revisada, 2010).
Os
pontos de vista existentes não eram todos igualmente legítimos
visto que, de fato, o ensino de Cristo e dos apóstolos já estavam
registrados e circulando pelas igrejas há várias décadas, mas por
várias circunstâncias, como a geográfica, o seu alcance não era
tão amplo e eficaz como se gostaria.
Bart
Ehrman enfatiza nesse capítulo como visões antes consideradas
certas passaram a ser tratadas como heréticas, posteriormente. O
problema é que o autor não confere aos seus leitores um contexto
adequado da dinâmica da igreja em seu início ao tratar disso –
levando-os à conclusões de arbitrariedade histórica no
estabelecimento das crenças cristãs. Não é o caso de visões
consideradas certas passarem a ser consideradas erradas, pois na
verdade não havia acontecido ainda um movimento dentro do
cristianismo primitivo dedicado a definir a validade dessas visões.
Podemos compreender melhor isso observando a ocorrência do “concílio
de Jerusalém” registrado em Atos 15: visões judaizantes conviviam
dentro do cristianismo emergente, de modo que só foram consideradas
"heréticas" após a decisão daquela assembleia.
Portanto,
não se trata de visões consideradas certas (ou erradas), apenas
visões não avaliadas – pois
no início da igreja não se vivia em circunstâncias para o debate
teológico que vemos posteriormente, era um outro contexto onde não
se sentia a necessidade de delimitar certas doutrinas de modo mais
rigoroso e detalhado, na verdade havia outras prioridades.
Mesmo
por volta da metade do século II, a maioria dos cristãos parecia
contente em viver com certo grau de confusão teológica. A
imprecisão teológica não era vista como ameaça à consistência
ou existência da igreja cristã. Esse
julgamento deve
ser visto como refletindo o contexto histórico daquela época: a
luta pela sobrevivência num ambiente cultural e político hostil
muitas vezes fazia com que outros assuntos fossem considerados menos
importantes. (MCGRATH, Alister. Heresias.
Hagnos, p. 33, 34).
Como
aponta Alister McGrath, não seria tão preciso afirmar que as visões
que caíram necessariamente estivessem erradas, curto e grosso. Na
verdade elas não eram boas o suficiente para o novo contexto que se
apresentava à igreja. O fato (histórico) dos primeiros cristãos
não estarem tão certos inicialmente quanto a divindade de Cristo e
de como entendê-la, não implica (teologicamente) que Ele não fosse
Deus (inclusive, encarnado) já que como vemos no livro de Atos e
cartas do N.T. não houve entendimento claro por parte de muitos
cristãos acerca de várias doutrinas como: a questão da
circuncisão, da salvação dos gentios etc. Isso aconteceu durante a
era apostólica e nas gerações seguintes também, nada de estranho
nisso.
Há
ainda mais um ponto que devemos destacar sobre este capítulo. Na
seção onde aborda a cristologia dos teodotianos, Bart Ehrman afima,
na contramão das acusações dos ortodoxos (de que os teodotianos
manipulavam a Escrituras), que “foram justamente os escribas
ortodoxos que modificaram os textos a fim de fazê-los combinar
melhor com os interesses teológicos ortodoxos”. Essa é uma
questão típica de Crítica Textual do Novo Testamento. A esse
respeito, Daniel Wallace tem feito um excelente trabalho de pesquisa
e debate argumentando que as possíveis ou até prováveis corrupções
feitas pelos escribas no N.T. não coloca em xeque nenhuma doutrina
essencial do Cristianismo – inclusive a Cristologia ortodoxa. Tal
conclusão já foi até admitida pelo próprio Ehrman em uma das
edições do seu livro Misquoting
Jesus
numa seção de perguntas e respostas². Nas edições posteriores,
porém, retiraram essa declaração.
Em
suma, a posição aqui defendida é que a verdade acerca de Cristo já
estava nos escritos que foram reconhecidos posteriormente pela Igreja
como o Novo Testamento. Esse reconhecimento não foi arbitrário. As
doutrinas afinal fixadas foram frutos de um desenvolvimento de
reflexão teológica que reage as demandas de cada época. As
diferentes expressões cristológicas presentes no N.T.
são passíveis de serem harmonizadas se entendemos que elas não são
completas em si mesmas, mas em conjunto. A verdade é completa e
harmônica, mas o entendimento sobre ela (teologia) é sempre
incompleto, muitas vezes dissonante, passível de desenvolvimentos
posteriores – justamente por ser humano.
REFERÊNCIAS:
REFERÊNCIAS:
1. http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/canon_anglada.htm
2. EHRMAN. Bart. Misquoting Jesus. Apêndice de uma edição impressa, p. 252. (Essas informações encontrei na palestra proferida por Daniel Wallace na Escola Teológica Charles Spurgeon que pode ser assistida através do YouTube. In.: https://www.youtube.com/watch?v=jxi8g0wM7vg (a partir de 25 min. e 20 seg. de reprodução).
