terça-feira, 20 de junho de 2017

Considerações Apologéticas à "Como Jesus Se Tornou Deus" (Capítulo 8) de Bart Ehrman

 O objeto deste texto é o capítulo 8 do livro escrito por Bart Ehrman intitulado “Como Jesus Se Tornou Deus”. Bart Ehrman, intelectual e acadêmico, tem sido um dos mais populares críticos da confiabilidade histórica do cristianismo e manuscritológica do Novo Testamento (não só em termos técnicos, mas também no sentido de atingir o próprio conteúdo da fé cristã). Este é o caso da obra aqui tratada, na qual Ehrman questiona historicamente a visão ortodoxa de Jesus Cristo como Deus preexistente que se encarnou tornando-se também humano. O capítulo aqui analisado é o oitavo e chama-se “Depois do Novo Testamento” e, basicamente, é onde o autor aborda as disputas cristológicas dos séculos II e III.
 As explanações feitas por Bart acerca dos diversos grupos e das concepções contrastantes de se entender Cristo que defendiam – Ebionismo, Adocionismo Romano, Docetismo, Marcionismo, Gnosticismo Cristão, Modalismo, etc. – são bastante úteis. No entanto, já nisso pode ser feita uma observação. como apontado por Trent Horn há exagero no argumento de que os bispos de Roma do século III aprovavam a concepção modalista. O exemplo do bispo Calisto usado por Ehrman apresenta falhas históricas: a única fonte para a acusação de que Calisto era modalista é Hipólito – conhecido opositor do bispo de Roma. A mais grave falha, porém, é que o bispo Calisto de Roma foi quem excomungou Sabélio – um dos principais proponentes do Modalismo. Eis a contradição. Bart Ehrman, no mínimo, precisaria tratar devidamente dessas questões para sustentar seu ponto.
 Além disso, há outras considerações que podemos fazer sobre este capítulo. Um dos argumentos de Ehrman é que havia muitas visões diferentes circulando entre os cristãos dos primeiros séculos, não somente acerca de Cristo como também sobre Deus, a Criação e a Bíblia Hebraica. Um dos motivos para tanto seria a inexistência do cânon neotestamentário, esse cânon, no entanto, foi estabelecido pelo grupo vencedor do debate. O que ele quer dizer é que foi uma questão de poder: se outro grupo fosse o vencedor então haveria outro Novo Testamento e a assim sugere que as crenças cristãs, hoje tão sólidas, são basicamente uma questão de processo histórico, não de verdade.
 Concordamos que um dos motivos para diferentes visões no seio do cristianismo primitivo era a ausência de um cânon neotestamentário, porém discordamos do tom relativista dado por Ehrman à formação do cânon do N.T. Não foi meramente uma questão de quem venceu dita as regras, houve critérios bem razoáveis e legítimos para o reconhecimento dos livros dotados de autoridade. “Logo no final do primeiro século e início do segundo (até 120 d.C.), boa parte dos livros do Novo Testamento já era conhecida, citada e até reverenciada como autoritativa pelos primeiros escritos cristãos que chegaram até nós”¹. Além do reconhecimento geral, o critério de autoria apostólica também foi muito importante no processo. Em suma, fazemos coro ao dito por F. F. Bruce:

Uma coisa precisa ser afirmada com toda ênfase: os livros do Novo Testamento não se tornaram escritos revestidos de autoridade para a igreja porque foram formalmente incluídos em uma lista canônica; pelo contrário, a igreja incluiu-os no cânon porque já os considerava divinamente inspirados, reconhecendo neles o valor inato e, em geral, a autoridade apostólica, direta ou indireta. […]. Esses concílios não objetivavam impor algo novo às comunidades cristãs, pelo contrário, o intuito era sistematizar o que já era uma prática comum. (BRUCE. F. F. Merece Confiança o Novo Testamento? Edições Vida Nova, 3ª Edição Revisada, 2010).

Os pontos de vista existentes não eram todos igualmente legítimos visto que, de fato, o ensino de Cristo e dos apóstolos já estavam registrados e circulando pelas igrejas há várias décadas, mas por várias circunstâncias, como a geográfica, o seu alcance não era tão amplo e eficaz como se gostaria.
 Bart Ehrman enfatiza nesse capítulo como visões antes consideradas certas passaram a ser tratadas como heréticas, posteriormente. O problema é que o autor não confere aos seus leitores um contexto adequado da dinâmica da igreja em seu início ao tratar disso – levando-os à conclusões de arbitrariedade histórica no estabelecimento das crenças cristãs. Não é o caso de visões consideradas certas passarem a ser consideradas erradas, pois na verdade não havia acontecido ainda um movimento dentro do cristianismo primitivo dedicado a definir a validade dessas visões. Podemos compreender melhor isso observando a ocorrência do “concílio de Jerusalém” registrado em Atos 15: visões judaizantes conviviam dentro do cristianismo emergente, de modo que só foram consideradas "heréticas" após a decisão daquela assembleia.
 Portanto, não se trata de visões consideradas certas (ou erradas), apenas visões não avaliadas pois no início da igreja não se vivia em circunstâncias para o debate teológico que vemos posteriormente, era um outro contexto onde não se sentia a necessidade de delimitar certas doutrinas de modo mais rigoroso e detalhado, na verdade havia outras prioridades.

Mesmo por volta da metade do século II, a maioria dos cristãos parecia contente em viver com certo grau de confusão teológica. A imprecisão teológica não era vista como ameaça à consistência ou existência da igreja cristã. Esse julgamento deve ser visto como refletindo o contexto histórico daquela época: a luta pela sobrevivência num ambiente cultural e político hostil muitas vezes fazia com que outros assuntos fossem considerados menos importantes. (MCGRATH, Alister. Heresias. Hagnos, p. 33, 34).

Como aponta Alister McGrath, não seria tão preciso afirmar que as visões que caíram necessariamente estivessem erradas, curto e grosso. Na verdade elas não eram boas o suficiente para o novo contexto que se apresentava à igreja. O fato (histórico) dos primeiros cristãos não estarem tão certos inicialmente quanto a divindade de Cristo e de como entendê-la, não implica (teologicamente) que Ele não fosse Deus (inclusive, encarnado) já que como vemos no livro de Atos e cartas do N.T. não houve entendimento claro por parte de muitos cristãos acerca de várias doutrinas como: a questão da circuncisão, da salvação dos gentios etc. Isso aconteceu durante a era apostólica e nas gerações seguintes também, nada de estranho nisso.
Há ainda mais um ponto que devemos destacar sobre este capítulo. Na seção onde aborda a cristologia dos teodotianos, Bart Ehrman afima, na contramão das acusações dos ortodoxos (de que os teodotianos manipulavam a Escrituras), que “foram justamente os escribas ortodoxos que modificaram os textos a fim de fazê-los combinar melhor com os interesses teológicos ortodoxos”. Essa é uma questão típica de Crítica Textual do Novo Testamento. A esse respeito, Daniel Wallace tem feito um excelente trabalho de pesquisa e debate argumentando que as possíveis ou até prováveis corrupções feitas pelos escribas no N.T. não coloca em xeque nenhuma doutrina essencial do Cristianismo – inclusive a Cristologia ortodoxa. Tal conclusão já foi até admitida pelo próprio Ehrman em uma das edições do seu livro Misquoting Jesus numa seção de perguntas e respostas². Nas edições posteriores, porém, retiraram essa declaração.
Em suma, a posição aqui defendida é que a verdade acerca de Cristo já estava nos escritos que foram reconhecidos posteriormente pela Igreja como o Novo Testamento. Esse reconhecimento não foi arbitrário. As doutrinas afinal fixadas foram frutos de um desenvolvimento de reflexão teológica que reage as demandas de cada época. As diferentes expressões cristológicas presentes no N.T. são passíveis de serem harmonizadas se entendemos que elas não são completas em si mesmas, mas em conjunto. A verdade é completa e harmônica, mas o entendimento sobre ela (teologia) é sempre incompleto, muitas vezes dissonante, passível de desenvolvimentos posteriores – justamente por ser humano.

REFERÊNCIAS:

1. http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/canon_anglada.htm 

2. EHRMAN. Bart. Misquoting Jesus. Apêndice de uma edição impressa, p. 252. (Essas informações encontrei na palestra proferida por Daniel Wallace na Escola Teológica Charles Spurgeon que pode ser assistida através do YouTube. In.: https://www.youtube.com/watch?v=jxi8g0wM7vg (a partir de 25 min. e 20 seg. de reprodução).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

"Fé" Demais Não Cheira Bem (Movimento da Confissão Positiva) - Parte II

No âmago do movimento da confissão positiva se encontra um conceito distorcido de fé. Entender esse ponto é essencial para compreensão de outros pontos doutrinários do movimento. Não é à toa que este movimento também é denominado movimento da - com "f" maiúsculo mesmo e de modo preciso, como perceberemos.

Esclareço previamente que nesse ponto não falamos de fé nos referindo a um sistema de crenças ou aos conteúdos doutrinários do Cristianismo, mas da fé no sentido simples de confiança ou "ato" de crer; ou nos termos da própria Escritura: "Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem" (Hebreus 11:1 - ARC). Bem, é justamente aí que começam grandes problemas na teologia desse movimento.

Entre os proponentes da corrente é comum o entendimento de que a fé é uma força no sentido literal; uma força tangível como a força da gravidade. Desse modo, como a força da gravidade faz a lei da gravidade funcionar, assim a força da fé faz funcionar as leis do mundo espiritual. Para eles, a nossa vida é como uma bateria que tem um polo positivo (a fé) e um negativo (o medo). A fé ativa Deus e o medo ativa Satanás. Qualquer semelhança com o conceito oriental de yin-yang pode não ser mera coincidência. No mínimo, é uma versão moderna para o velho dualismo - "a crença de que, na raiz de todas as coisas, há duas forças iguais e independentes, uma delas boa, a outra má. O universo é o campo de batalha no qual travam uma guerra sem fim"¹.


Tal conceito de fé alcança um nível ainda mais estranho ao cristianismo bíblico e histórico quando afirma, como o fez Kenneth Copeland, que "Deus não pode fazer qualquer à parte ou separado da fé", porquanto a "fé é a origem do poder de Deus"². Até mesmo o mundo “nasceu da força da fé, que residia dentro do ser de Deus”². Em suma, até Deus tem fé e depende da fé. Nessa linha, o chamado de Kenneth Hagin para os crentes é Having Faith in Your Faith (Tenha Fé em Sua Fé) - título de um de seus livretes. Podemos concluir que, dentro da teologia do movimento, Deus torna-se mero instrumento da fé.


O que seria então a fé numa visão genuinamente bíblica e cristã? Longe de um conceito sofisticado de uma força mística, impessoal, capaz de subjugar o próprio Deus, a resposta é simples:
A fé é um canal de confiança viva — uma “certeza” que se estende do homem até Deus. A verdadeira fé bíblica só pode ser boa quanto seja bom o objeto sobre o qual é posta. Assim, a verdadeira fé bíblica é a fé em Deus, ao contrário da fé na substância (ou “fé na fé”, conforme Hagin coloca) [HANEGRAAFF, pp 76 e 77].
Como podemos perceber, a fé não é algo independente, que existe por si mesmo; a fé existe ou acontece, necessariamente, repousada sobre algo ou alguém - que é o objeto da fé. Se a nossa fé não estiver em Deus, ela estará em alguma outra coisa, o que resultaria em idolatria. Desse modo, podemos concluir que ter fé na fé não é ter realmente fé, mas sim idolatrar-se.

Se a fé é como a bíblia diz "a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos" (Hb 11:1 - NVI), então não podemos dizer que Deus tem fé, já que Ele é Todo-Poderoso e não precisa esperar por nada e é Onisciente e Onividente - o Deus que tudo sabe e tudo vê! Como Hank explica em seu livro:
Se Deus tivesse de exercer fé, claro está que teria de depender dalguma coisa fora de si mesmo na qual pudesse firmar sua fé para obter conhecimento ou poder. E isso, óbvio, é antibíblico. A Bíblia retrata Deus como aquEle que vê e sabe tudo desde a eternidade, e que detém suprema e absoluta autoridade. Ele não precisa ter fé. [HANEGRAAFF, pp 99 e 100].
Os propagadores do movimento da Fé costumam usar Marcos 11:22 para justificar o ensino de que Deus tem fé, alegando que no original grego o texto pode ser lido como “tende a fé de Deus”. No entanto, a grande maioria dos estudiosos de gramática grega concordam que o texto deve ser traduzido por “tende fé em Deus” - além disso, essa leitura é a que melhor se harmoniza com o que é apresentado em todo o restante da bíblia sobre Deus, sua natureza e seus atributos.

A fé que a bíblia nos ensina a ter está firmada em um único objeto - Deus -, mas não no sentido de crer que Ele fará, necessariamente, o que estamos pedindo ou "confessando", mas no sentido de crer que Ele nos ouve e que fará conforme a sua vontade; e que essa vontade é boa, perfeita e agradável (Rm 12:2) mesmo que não seja o que nós esperávamos.

Continua...
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1. LEWIS, C.S. Cristianismo Puro e Simples. Martins Fontes, 3ª Ed - 2009, p. 56.

2. HANEGRAAFF, Hank. Cristianismo em Crise. 1996, CPAD. 6ª impressão (2013), p. 72.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Devocional #01 - Resposta a um terno recado.


Devocional, baseado no sermão de Charles H. Spurgeon, N. 585

Então lhes disse,claramente: "Lázaro morreu, e para o bem de vocês estou contente por não ter estado lá, para que vocês creiam. Mas, vamos até ele" (João 11:14-15)

Na humilde aldeia de Betânia,morava uma família completamente feliz. Lázaro, Marta e Maria. Três irmãos, sem seu pai e sem sua mãe. Eles já haviam conhecido Jesus, tinham um relacionamento de profunda amizade com Ele, e sempre recebiam suas visitas. Sempre mantinham as portas abertas para o mestre entrar. Em um certo dia, Lázaro é acometido de uma doença grave. Qual não é o primeiro pensamento de suas irmãs, Marta e Maria, se não enviar,preocupadas, um terno recado ao seu amigo de sempre, Jesus: “Senhor,aquele a quem amas está doente” Elas têm a plena consciência de que apenas uma palavra do mestre, restituiria por completo a saúde do irmão. Sabem que não precisaria que ele viesse até a casa. Jesus, recebendo a mensagem, envia uma resposta que até contém um consolo, mas creio que não era bem aquilo que elas esperavam: "Essa doença não acabará em morte; é para a glória de Deus, para que o filho de Deus seja glorificado por meio dela.". (João 11:4)

Com certeza, Lázaro deve ter se animado ao saber que sua doença “não era para morte”, entretanto seu estado se agrava demasiadamente e lá está ele totalmente debilitado em um leito em sua casa, quando finalmente seu corpo desfalece e ele morre. Imagino a tristeza de suas irmãs ao ver ali, o corpo do irmão, as perguntas que se passavam em seus pensamentos: “Porque Jesus não estava ali?” “Porque ele não veio rápido ao nosso socorro?” “Ele não disse que essa doença não era para morte?” “ Porque Ele não nos poupou de tudo isso? Bastaria uma palavra Dele e nosso irmão seria curado.” Marta e Maria sempre estavam dispostas a servir ao mestre por amor a ele, por que Ele não queria dar aquilo que o coração delas tanto almejavam? Como ele poderia ter enviado a elas uma promessa que ele parecia não cumprir? Abatendo assim, sua esperança e sua fé. Acredito, assim como Spurgeon, que nesse momento a vontade e a misericórdia de Jesus voava tão alto que ninguém era capaz de alcançar a compreensão do porquê Jesus estava permitindo tudo isso.

Ainda mais surpreendentes são suas palavras,ele não diz: “perdoe-me por ter me atrasado tanto” ou “Eu deveria ter me apressado, mas ainda não é tarde”. Ele diz:”Estou CONTENTE por não ter estado lá...” mas espera ai, contente? Nesse momento Lázaro já estava há dias no seu tumulo e Jesus está contente? Como assim? Mais uma vez acredito que os que ouviram essas suas palavras, também devem ter se indagado dessa maneira. Quantas vezes não nos encontramos nesse mesmo lugar? Sem entender o porquê estão acontecendo situações, muitas vezes, contrárias a própria palavra que Ele nos deu. São nesses momentos que devemos nos apegar a certeza de que Jesus sabe mais do que nós e a nossa fé pode ficar quieta tentando entender o que Ele está pretendendo fazer com tudo isso, enquanto o nosso raciocínio não consegue descobrir a primeira vista. 

Voltemos para o que Jesus disse: “ Estou contente por não ter estado lá, para que vocês CREIAM” ou seja, ele não está feliz pela tristeza, mas pelo resultado que ela trará. Cristo está feliz, por que através da tristeza a fé dos discípulos alcançará um novo patamar. Ele está feliz de não ter estado ali para impedir a aflição, porque já que ela veio, ensinará a eles a crer em Jesus e isso será muito melhor para eles do que se eles estivessem sido poupados dessa aflição. Compreende o principio aqui? O Senhor atribui tão grande valor a fé que Ele não nos irá poupar de situações onde nossa fé será fortalecida. 

“ A fé não provada pode ser verdadeira,mas certamente é fraca. Estou persuadido, meus irmãos, a acreditar que onde não há provação, a fé,  com custo consegue respirar suficientemente para viver.  A fé, como a salamandra das fábulas, tem o fogo como seu elemento nativo. Nunca a fé prospera tão bem do que quando as coisas lhes são contrarias.” (C.H. Spurgeon)

Podemos ir além e “dividir” a alegria de Jesus em 3 Partes:

- Jesus estava contente, porque aquela aflição aumentaria a fé e a confiança dos seus discípulos nele.

- Jesus estava contente, porque toda aquela dor aumentaria a fé da família (Lázaro,Marta e Maria)

- Jesus estava contente, porque através de toda aquela situação seria dado fé a todos aqueles que estavam ali  em volta, observando a ressurreição de Lázaro. Como relatado no versículo 45 do mesmo capítulo: “Muitos dos Judeus que tinham vindo visitar Maria,vendo o que Jesus fizera, creram Nele”

Percebe agora como “os pensamentos e caminhos” do Senhor são tão mais altos que os nossos? Se em resposta ao seu “terno recado”, Jesus te deu uma direção, uma palavra ou uma promessa, creia. Saiba que, independente do tempo ou circunstâncias, o mestre não perdeu o controle. Ele não chegará atrasado, as aflições e provações “não serão para morte,mas para que você creia”. Mantenha os olhos fitos em Cristo, deixe com que ele trabalhe sua fé. Ele cumprirá o que disse.


“Que os ventos venham uivando e as águas fiquem encapeladas e então,embora o navio fique balançando, o seu convés seja levado pelas ondas e o seu mastro fique rangendo com a pressão da vela cheia e inflada, é justamente então que se faz progresso para o porto desejado” (C.H. Spurgeon)


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

"Fé" Demais Não Cheira Bem (Movimento da Confissão Positiva) - PARTE I

"E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita". (II Pedro 2: 1-3)

Este é o primeiro texto de uma série que analisará biblicamente o movimento da confissão positiva. A importância de tratarmos desse assunto é que diferente das religiões e seitas - que muitas vezes apresentam ensinos e práticas relativamente distantes da realidade cristã evangélica - o movimento da confissão positiva está muito mais próximo. Seja por meio de programas de televisão, rádio, livros, cursos ministeriais, igrejas e pregadores, as doutrinas desse movimento já influenciaram bastante o evangelicalismo brasileiro, de modo que provavelmente a maioria dos evangélicos já foram expostos a elas.

Material considerável já foi escrito a respeito das perigosas distorções desse movimento, mas a falta de leitura bíblica e extrabíblica reinante no meio evangélico torna necessário continuarmos popularizando a defesa bíblica a respeito do assunto. No Brasil destaca-se o papel do estudioso e pastor pentecostal Paulo Romeiro, autor do livro Supercrentes. No entanto, o conteúdo apresentado aqui baseia-se no livro de Hank Hanegraaff, publicado no Brasil pela CPAD. No livro, o movimento da confissão positiva é mais frequentemente denominado de movimento da Fé, por isso desde já considere-se as duas nomenclaturas equivalentes. 

Talvez você não esteja certo sobre o que estamos falando quando nos referimos ao movimento da confissão positiva, então essa primeira parte servirá para você conhecer do que se trata e provavelmente perceber o quão familiar é esse assunto. Isso faremos através de uma história com um final muito triste, mas que cumpre bem o papel introdutório a que nos propomos. [Caso você seja adepto desse movimento ou faça parte de uma igreja que segue suas doutrinas, peço que não descarte a leitura dessa série de forma precipitada. Acompanhe o nosso trabalho, ore a Deus e examine pela Bíblia - certamente será um exercício edificante para você seja qual for a conclusão que você alcançar].

Segue abaixo o relato: 

Larry e Lucky Parker pensaram que conheciam o caminho para o 'hall da fama' da Fé. Eles tinham ouvido a mensagem da Fé durante anos. Conheciam praticamente de cor as fórmulas da Fé. Mas, naquela ocasião, quando um vendedor da Fé passou pela cidade, eles engoliram veneno espiritual além do que podiam suportar. E foram carregados na direção errada, por uma rua de mão única no que concerne à fé. Sua trágica narrativa foi corajosamente publicada em 1980, pela Harvest House. O livro deles, intitulado We Let Our Son Die ('Nós Deixamos Nosso Filho Morrer'), conta os trágicos detalhes duma mal orientada viagem de fé. Valendo-se de detalhes sutis e dolorosos, Larry e sua esposa pintaram o quadro de como suspenderam as aplicações de insulina no filho diabético. Conforme era de se imaginar, Wesley entrou em estado de coma.

Os Parkers, advertidos de quão impróprio era ceder a uma 'confissão negativa', continuaram a fazer uma 'confissão positiva' da cura de Wesley, até a hora de sua morte. E, mesmo depois da morte do garoto, os Parkers, não desanimando em sua 'fé', efetuaram um culto de ressurreição, em vez do serviço fúnebre exigido pela circunstância. De fato, por quase um ano após a fatídica morte, eles se recusaram a abandonar sua fé apegando-se a ela com todas as forças -, achando que Wesley, à semelhança de Jesus, haveria de ressuscitar dos mortos. Finalmente, tanto Larry quando Lucky foram levados a julgamento e condenados por homicídio e abuso contra uma criança 

"Um relato trágico? O mais trágico é que incontáveis histórias como essa poderiam ser contadas com a mesma carga de dor e sofrimento. Em cada caso desses a moral é sempre a mesma: um conceito distorcido da fé sempre leva ao naufrágio e à morte - algumas vezes no sentido espiritual, outras no físico e ainda em outros"².

Conceito distorcido de fé, doutrinas que divinizam o homem e rebaixam a Deus e Cristo, distorções sobre a redenção, falsos ensinos a respeito de prosperidade e da relação do crente com o sofrimento - são exemplos das áreas onde os adeptos do movimento da Fé têm promovido sérios erros, e muitas vezes heresias, cujas consequências têm sido desastrosas para a saúde da Igreja do Senhor.

CONTINUA...
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1. HANEGRAAFF, Hank. Cristianismo em Crise. 1996, CPAD. 6ª impressão (2013), pp. 67, 68.

2. HANEGRAAFF, Hank. Cristianismo em Crise. 1996, CPAD. 6ª impressão (2013), p. 68.  

terça-feira, 1 de março de 2016

Sem Santificação Ninguém Verá a Deus?

Sim. É verdade! Em Hebreus 12:14 está escrito: Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor, (ARA). Creio que essa passagem da Escritura é muito conhecida dos evangélicos e de outros cristãos. No entanto, a abordagem mais comum e frequente desse trecho me parece ser bastante problemática em nosso meio. Me refiro ao fato de que através dele acabamos por ensinar direta ou indiretamente uma salvação pela santidade, o que não seria diferente de dizer: uma salvação pelas obras.

Ao invés de estimular o crente a viver para a glória de Deus, geralmente esse versículo é usado para chantagear o ouvinte a assumir um comportamento melhor - pois se não o fizer não verá a Deus, em última análise, não será salvo ou perderá sua salvação. Sem entrar no mérito da questão da doutrina da perseverança dos santos, é fácil perceber que tais discursos passam a tratar a salvação como recompensa/salário ao invés de um dom de Deus. Assim, contradizem o que diz a Escritura em Efésios 2: 8 e 9 cuja mensagem é corroborada em vários lugares da Bíblia (Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie;).

Essa contradição, na verdade, tem como uma de suas causas a má compreensão das partes em questão: o versículo de Hebreus e a salvação pela graça. Comecemos, então, por este último ponto:

Um dos principais erros que podemos cometer ao abraçarmos a doutrina da salvação somente pela graça é pensar que as obras tornam-se obsoletas, ou seja, que o que se faz ou se deixa de fazer (sejam obras de santidade, caridade etc.) já não tem importância alguma diante de Deus. Tal pensamento não está correto. Basta continuar a leitura de Efésios 2 que citamos. Observe o versículo 10:

Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas. (ARA)

Fica claro, portanto, no próprio texto áureo da salvação pela graça, que as obras são tão importantes para Deus que Ele as preparou para nós, antes mesmo de o conhecermos, para que as praticássemos. Tiago será mais enfático ao afirmar que uma fé sem obras é uma fé morta e que tal fé não é salvífica (Tg 2: 14-26). No que toca à santificação, aquele que foi salvo pela graça mediante a fé será necessariamente inclinado, pela nova vida que recebeu em Cristo, à se separar da corrupção deste mundo e a ser obediente aos mandamentos do Senhor. Dito de outra maneira, uma vez que o pecador foi justificado é conduzido necessariamente à santificação.

A segunda parte da questão é propriamente a interpretação de Hb 12:14.

Alguns cristãos, no bom intuito de fugir da interpretação "legalista", têm sugerido que a passagem citada deve ser entendida em termos do testemunho que o crente deve dar com sua vida às pessoas que o cercam. Dessa maneira, o versículo poderia ser lido assim: "Segui a paz com todos e a santificação, pois sem ela os outros não verão a Deus [em vocês/através de vocês]". Penso que é uma alternativa que emite uma verdade bíblica, mas não me parece ser o que o autor quis dizer no texto em questão. Diante do contexto da carta aos Hebreus, do contexto do capítulo 12 e do que Jesus mesmo disse - "Bem aventurado os limpos de coração, porque eles verão a Deus" (Mt 5:8) - essa saída interpretativa se mostra sofisticada demais - ao menos em meu entendimento.

A carta aos Hebreus como um todo é, em suma, uma "palavra de exortação" (Hb 13:22), ou seja uma palavra de encorajamento, recheada com advertências, enviada à cristãos convertidos do judaísmo e que agora, devido a tribulações e perseguições, revelavam-se fracos na fé e inclinados à apostasia. De modo geral, o autor demonstra enfaticamente o quão superior é a nova aliança em Cristo Jesus em comparação a antiga aliança que Deus estabeleceu através de Moisés.

No capítulo 12 a carta já se aproxima do final e começa apontado para Cristo como o maior exemplo de perseverança no qual esses cristãos deveriam se apoiar. A partir do versículo 5 o autor introduz o tema da disciplina paterna de Deus para com seus filhos e esse ponto é crucial para o entendimento de Hb 12:14. Esses cristãos deveriam encarar os sofrimentos pelos quais estavam passando como instrumento disciplinador, como o meio pelo qual Deus Pai estava os corrigindo e isso era uma demonstração do amor de Deus por eles. Os versículos 10 e 11 são essenciais para o nosso entendimento do versículo 14:

Porque aqueles, na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela. (Hb 12:10, 11) [NVI].

Dotados dessa perspectiva e entendimento esses crentes estariam capacitados a superar todo desanimo e prontos para fortalecer os demais abatidos da congregação (Hb 12: 12 e 13). O versículo 14 não pode ser interpretado desconectado desse contexto. O tema da santificação já aparece no versículo 10. Santificação é isso: o processo pelo qual Deus nos torna participantes da sua santidade. Portanto, "Segui... a santificação..." é nos submetermos a esse processo, um processo de aperfeiçoamento dirigido pelo nosso Pai amoroso. 

Porém a grande questão é o que vem a seguir: "sem a qual ninguém verá o Senhor". Para tratar disso permita-me fazer uma ilustração:

Suponhamos que, por algum motivo, Maria necessite estar em Londres amanhã e é uma questão de vida ou morte. No entanto, ela não possui os recursos necessários para o deslocamento. Um amigo conhecedor da sua situação se compadece e lhe compra uma passagem de avião. Ele, no entanto, a avisa que seu avião fará uma escala em Portugal e lhe esclarece que não havia nenhum voo que fizesse uma conexão direta do Brasil para a Inglaterra. Maria, por fim, chega em Londres agradecida pela bondade de seu amigo.

Agora eu pergunto: o que garantiu a chegada de Maria a Londres foi a escala em Portugal? Obviamente que não! A passagem comprada por seu amigo era sua garantia. Foi o ato compassivo de seu amigo e nenhum mérito seu.

Toda ilustração é falha em algum nível quando se trata de explicar as coisas espirituais, porém ela nos ajuda a entender que a santificação é uma escala/etapa necessária na jornada do cristão até que ele chegue à presença de Deus em perfeita unidade no Reino dos Céus. Não se trata do crente ter que conquistar ou merecer a sua salvação, pois foi Cristo quem se ofereceu como oferta pelos nossos pecados e assim Deus "[…] nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor" (Cl 1:13). Cristo é toda a nossa garantia e é uma garantia suficiente e perfeita.

Encontramos uma relação parecida em Atos 14:22 onde se diz: "fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que , através de muitas tribulações, nos importa entrar no Reino de Deus". Não é difícil perceber que não está sendo dada às "muitas tribulações" o papel de nos salvar em qualquer medida que seja, mas o que se ensina é que elas fazem parte da vida cristã até que nossa entrada no Reino se cumpra integralmente, afinal "como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram" (Mt 7:14).

Do que se trata então a santificação? É um processo inevitável no caminho daquele que foi salvo pela graça somente, através da fé somente. E isso por quê? "Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação;" (1ª Ts 4:3a). Há uma destinação estabelecida previamente por Deus para que aqueles que estão em Cristo tornem-se semelhantes a Ele, "pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (Rm 8:29).

Como disse C.H. Spurgeon: "a santidade não é o caminho para Cristo; Cristo é o caminho para santidade".

quarta-feira, 24 de junho de 2015

JESUS REVOLUCIONÁRIO

É incrível como uma mentira repetida várias vezes pode tornar-se verdade (na cabeça de muitos). Uma delas é a afirmação de que Jesus era de esquerda, ou que Ele era comunista. Ideias parecidas com essa são bem antigas. Lembro-me de certa vez, pesquisando, ter lido num jornal do final do século XIX uma passagem que se referia a Jesus como um "sans-culottes" (populares que contribuíram para a radicalização da Revolução Francesa). Ainda no Brasil, em 1960, "A Cartilha do Camponês", publicada pelas Ligas Camponesas, dizia em certo lugar: "Teu Deus é manso como um cordeiro. Se chama Jesus Cristo. Nasceu em um estábulo. Viveu entre os pobres. Se rodeou de pescadores, camponeses, operários e mendigos. Queria a liberdade de todos eles. Dizia que terra devia ser de quem trabalha. E o fruto era comum. São suas as seguintes palavras: 'É mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha, que um rico entrar no reino dos céus'. Porque afirmava essas coisas foi crucificado pelos latifundiários do seu tempo. Hoje seria fuzilado. Ou o internariam num asilo de loucos. Ou seria preso como comunista".

Algumas coisas me passam pela mente ao lidar com esses discursos e me fazer perceber quão absurdas são tais ideias:

1. O anacronismo está patente, claro como o sol. Esquerda e Direita são categorias políticas que passaram a ser utilizadas no contexto da Revolução Francesa - que começou 1789 anos depois do mesmo Jesus que querem classificar. Não faz sentido algum usar os termos para quem viveu, na Palestina, há mais de mil e setecentos anos. Pela mesma lógica, não se pode chamá-lo de comunista. O pior é saber que existem estudantes e professores de História que se utilizam ou aplaudem esse tipo de retórica; os mesmos que aprenderam desde cedo que o anacronismo é o pecado capital do historiador. No entanto, desonestidade intelectual absurda é dizer que Jesus viveu no meio de "operários"... não precisa nem comentar.

2. Quem quer classificar Jesus como um tipo de revolucionário político ou algo do tipo parece que não conheceu ou ignorou propositalmente (nesse caso, ideologicamente), suas próprias palavras quando disse: "Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus (Lucas 20:25). Se, como nesse episódio, Jesus não defendeu nem que os judeus deixassem de pagar imposto a Roma, o que ele diria de algo mais radical? Em outro momento suas intenções foram ainda mais claras ao responder a Pilatos se era o rei dos judeus: "Disse Jesus: 'O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui'" (João 18:36).

3. Apresentar Jesus e o seu movimento dessa forma acaba justificando o discurso dos seus algozes que além de o acusarem de blasfêmia, fizeram uma denuncia política acusando-o de sedição. "Daí em diante Pilatos procurou libertar Jesus, mas os judeus gritavam: "Se deixares esse homem livre, não és amigo de César. Quem se diz rei opõe-se a César" (João 19:12).

Jesus é Grande demais para se enquadrar em categorias políticas: seja direita ou esquerda. Todos que tentam fazê-lo mutilam o verdadeiro significado da sua pessoa. Porém tenho que admitir que Ele de fato foi revolucionário, o revolucionário por excelência. Diferentemente dos ícones políticos dessa geração ideologicamente entorpecida Ele sabia que implementar mudanças sistemáticas na economia ou política não é mexer na raiz do problema. Por isso, ele foi o verdadeiro radical, pois veio para mudar corações - "Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias" (Mt 15:19). Sua morte na cruz oferece perdão e transformação de vida. Sem isso tudo é vaidade.

Ele é o próprio Deus, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós, por favor não o reduza com essas classificações.