quarta-feira, 24 de junho de 2015

JESUS REVOLUCIONÁRIO

É incrível como uma mentira repetida várias vezes pode tornar-se verdade (na cabeça de muitos). Uma delas é a afirmação de que Jesus era de esquerda, ou que Ele era comunista. Ideias parecidas com essa são bem antigas. Lembro-me de certa vez, pesquisando, ter lido num jornal do final do século XIX uma passagem que se referia a Jesus como um "sans-culottes" (populares que contribuíram para a radicalização da Revolução Francesa). Ainda no Brasil, em 1960, "A Cartilha do Camponês", publicada pelas Ligas Camponesas, dizia em certo lugar: "Teu Deus é manso como um cordeiro. Se chama Jesus Cristo. Nasceu em um estábulo. Viveu entre os pobres. Se rodeou de pescadores, camponeses, operários e mendigos. Queria a liberdade de todos eles. Dizia que terra devia ser de quem trabalha. E o fruto era comum. São suas as seguintes palavras: 'É mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha, que um rico entrar no reino dos céus'. Porque afirmava essas coisas foi crucificado pelos latifundiários do seu tempo. Hoje seria fuzilado. Ou o internariam num asilo de loucos. Ou seria preso como comunista".

Algumas coisas me passam pela mente ao lidar com esses discursos e me fazer perceber quão absurdas são tais ideias:

1. O anacronismo está patente, claro como o sol. Esquerda e Direita são categorias políticas que passaram a ser utilizadas no contexto da Revolução Francesa - que começou 1789 anos depois do mesmo Jesus que querem classificar. Não faz sentido algum usar os termos para quem viveu, na Palestina, há mais de mil e setecentos anos. Pela mesma lógica, não se pode chamá-lo de comunista. O pior é saber que existem estudantes e professores de História que se utilizam ou aplaudem esse tipo de retórica; os mesmos que aprenderam desde cedo que o anacronismo é o pecado capital do historiador. No entanto, desonestidade intelectual absurda é dizer que Jesus viveu no meio de "operários"... não precisa nem comentar.

2. Quem quer classificar Jesus como um tipo de revolucionário político ou algo do tipo parece que não conheceu ou ignorou propositalmente (nesse caso, ideologicamente), suas próprias palavras quando disse: "Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus (Lucas 20:25). Se, como nesse episódio, Jesus não defendeu nem que os judeus deixassem de pagar imposto a Roma, o que ele diria de algo mais radical? Em outro momento suas intenções foram ainda mais claras ao responder a Pilatos se era o rei dos judeus: "Disse Jesus: 'O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui'" (João 18:36).

3. Apresentar Jesus e o seu movimento dessa forma acaba justificando o discurso dos seus algozes que além de o acusarem de blasfêmia, fizeram uma denuncia política acusando-o de sedição. "Daí em diante Pilatos procurou libertar Jesus, mas os judeus gritavam: "Se deixares esse homem livre, não és amigo de César. Quem se diz rei opõe-se a César" (João 19:12).

Jesus é Grande demais para se enquadrar em categorias políticas: seja direita ou esquerda. Todos que tentam fazê-lo mutilam o verdadeiro significado da sua pessoa. Porém tenho que admitir que Ele de fato foi revolucionário, o revolucionário por excelência. Diferentemente dos ícones políticos dessa geração ideologicamente entorpecida Ele sabia que implementar mudanças sistemáticas na economia ou política não é mexer na raiz do problema. Por isso, ele foi o verdadeiro radical, pois veio para mudar corações - "Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias" (Mt 15:19). Sua morte na cruz oferece perdão e transformação de vida. Sem isso tudo é vaidade.

Ele é o próprio Deus, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós, por favor não o reduza com essas classificações.