terça-feira, 20 de junho de 2017

Considerações Apologéticas à "Como Jesus Se Tornou Deus" (Capítulo 8) de Bart Ehrman

 O objeto deste texto é o capítulo 8 do livro escrito por Bart Ehrman intitulado “Como Jesus Se Tornou Deus”. Bart Ehrman, intelectual e acadêmico, tem sido um dos mais populares críticos da confiabilidade histórica do cristianismo e manuscritológica do Novo Testamento (não só em termos técnicos, mas também no sentido de atingir o próprio conteúdo da fé cristã). Este é o caso da obra aqui tratada, na qual Ehrman questiona historicamente a visão ortodoxa de Jesus Cristo como Deus preexistente que se encarnou tornando-se também humano. O capítulo aqui analisado é o oitavo e chama-se “Depois do Novo Testamento” e, basicamente, é onde o autor aborda as disputas cristológicas dos séculos II e III.
 As explanações feitas por Bart acerca dos diversos grupos e das concepções contrastantes de se entender Cristo que defendiam – Ebionismo, Adocionismo Romano, Docetismo, Marcionismo, Gnosticismo Cristão, Modalismo, etc. – são bastante úteis. No entanto, já nisso pode ser feita uma observação. como apontado por Trent Horn há exagero no argumento de que os bispos de Roma do século III aprovavam a concepção modalista. O exemplo do bispo Calisto usado por Ehrman apresenta falhas históricas: a única fonte para a acusação de que Calisto era modalista é Hipólito – conhecido opositor do bispo de Roma. A mais grave falha, porém, é que o bispo Calisto de Roma foi quem excomungou Sabélio – um dos principais proponentes do Modalismo. Eis a contradição. Bart Ehrman, no mínimo, precisaria tratar devidamente dessas questões para sustentar seu ponto.
 Além disso, há outras considerações que podemos fazer sobre este capítulo. Um dos argumentos de Ehrman é que havia muitas visões diferentes circulando entre os cristãos dos primeiros séculos, não somente acerca de Cristo como também sobre Deus, a Criação e a Bíblia Hebraica. Um dos motivos para tanto seria a inexistência do cânon neotestamentário, esse cânon, no entanto, foi estabelecido pelo grupo vencedor do debate. O que ele quer dizer é que foi uma questão de poder: se outro grupo fosse o vencedor então haveria outro Novo Testamento e a assim sugere que as crenças cristãs, hoje tão sólidas, são basicamente uma questão de processo histórico, não de verdade.
 Concordamos que um dos motivos para diferentes visões no seio do cristianismo primitivo era a ausência de um cânon neotestamentário, porém discordamos do tom relativista dado por Ehrman à formação do cânon do N.T. Não foi meramente uma questão de quem venceu dita as regras, houve critérios bem razoáveis e legítimos para o reconhecimento dos livros dotados de autoridade. “Logo no final do primeiro século e início do segundo (até 120 d.C.), boa parte dos livros do Novo Testamento já era conhecida, citada e até reverenciada como autoritativa pelos primeiros escritos cristãos que chegaram até nós”¹. Além do reconhecimento geral, o critério de autoria apostólica também foi muito importante no processo. Em suma, fazemos coro ao dito por F. F. Bruce:

Uma coisa precisa ser afirmada com toda ênfase: os livros do Novo Testamento não se tornaram escritos revestidos de autoridade para a igreja porque foram formalmente incluídos em uma lista canônica; pelo contrário, a igreja incluiu-os no cânon porque já os considerava divinamente inspirados, reconhecendo neles o valor inato e, em geral, a autoridade apostólica, direta ou indireta. […]. Esses concílios não objetivavam impor algo novo às comunidades cristãs, pelo contrário, o intuito era sistematizar o que já era uma prática comum. (BRUCE. F. F. Merece Confiança o Novo Testamento? Edições Vida Nova, 3ª Edição Revisada, 2010).

Os pontos de vista existentes não eram todos igualmente legítimos visto que, de fato, o ensino de Cristo e dos apóstolos já estavam registrados e circulando pelas igrejas há várias décadas, mas por várias circunstâncias, como a geográfica, o seu alcance não era tão amplo e eficaz como se gostaria.
 Bart Ehrman enfatiza nesse capítulo como visões antes consideradas certas passaram a ser tratadas como heréticas, posteriormente. O problema é que o autor não confere aos seus leitores um contexto adequado da dinâmica da igreja em seu início ao tratar disso – levando-os à conclusões de arbitrariedade histórica no estabelecimento das crenças cristãs. Não é o caso de visões consideradas certas passarem a ser consideradas erradas, pois na verdade não havia acontecido ainda um movimento dentro do cristianismo primitivo dedicado a definir a validade dessas visões. Podemos compreender melhor isso observando a ocorrência do “concílio de Jerusalém” registrado em Atos 15: visões judaizantes conviviam dentro do cristianismo emergente, de modo que só foram consideradas "heréticas" após a decisão daquela assembleia.
 Portanto, não se trata de visões consideradas certas (ou erradas), apenas visões não avaliadas pois no início da igreja não se vivia em circunstâncias para o debate teológico que vemos posteriormente, era um outro contexto onde não se sentia a necessidade de delimitar certas doutrinas de modo mais rigoroso e detalhado, na verdade havia outras prioridades.

Mesmo por volta da metade do século II, a maioria dos cristãos parecia contente em viver com certo grau de confusão teológica. A imprecisão teológica não era vista como ameaça à consistência ou existência da igreja cristã. Esse julgamento deve ser visto como refletindo o contexto histórico daquela época: a luta pela sobrevivência num ambiente cultural e político hostil muitas vezes fazia com que outros assuntos fossem considerados menos importantes. (MCGRATH, Alister. Heresias. Hagnos, p. 33, 34).

Como aponta Alister McGrath, não seria tão preciso afirmar que as visões que caíram necessariamente estivessem erradas, curto e grosso. Na verdade elas não eram boas o suficiente para o novo contexto que se apresentava à igreja. O fato (histórico) dos primeiros cristãos não estarem tão certos inicialmente quanto a divindade de Cristo e de como entendê-la, não implica (teologicamente) que Ele não fosse Deus (inclusive, encarnado) já que como vemos no livro de Atos e cartas do N.T. não houve entendimento claro por parte de muitos cristãos acerca de várias doutrinas como: a questão da circuncisão, da salvação dos gentios etc. Isso aconteceu durante a era apostólica e nas gerações seguintes também, nada de estranho nisso.
Há ainda mais um ponto que devemos destacar sobre este capítulo. Na seção onde aborda a cristologia dos teodotianos, Bart Ehrman afima, na contramão das acusações dos ortodoxos (de que os teodotianos manipulavam a Escrituras), que “foram justamente os escribas ortodoxos que modificaram os textos a fim de fazê-los combinar melhor com os interesses teológicos ortodoxos”. Essa é uma questão típica de Crítica Textual do Novo Testamento. A esse respeito, Daniel Wallace tem feito um excelente trabalho de pesquisa e debate argumentando que as possíveis ou até prováveis corrupções feitas pelos escribas no N.T. não coloca em xeque nenhuma doutrina essencial do Cristianismo – inclusive a Cristologia ortodoxa. Tal conclusão já foi até admitida pelo próprio Ehrman em uma das edições do seu livro Misquoting Jesus numa seção de perguntas e respostas². Nas edições posteriores, porém, retiraram essa declaração.
Em suma, a posição aqui defendida é que a verdade acerca de Cristo já estava nos escritos que foram reconhecidos posteriormente pela Igreja como o Novo Testamento. Esse reconhecimento não foi arbitrário. As doutrinas afinal fixadas foram frutos de um desenvolvimento de reflexão teológica que reage as demandas de cada época. As diferentes expressões cristológicas presentes no N.T. são passíveis de serem harmonizadas se entendemos que elas não são completas em si mesmas, mas em conjunto. A verdade é completa e harmônica, mas o entendimento sobre ela (teologia) é sempre incompleto, muitas vezes dissonante, passível de desenvolvimentos posteriores – justamente por ser humano.

REFERÊNCIAS:

1. http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/canon_anglada.htm 

2. EHRMAN. Bart. Misquoting Jesus. Apêndice de uma edição impressa, p. 252. (Essas informações encontrei na palestra proferida por Daniel Wallace na Escola Teológica Charles Spurgeon que pode ser assistida através do YouTube. In.: https://www.youtube.com/watch?v=jxi8g0wM7vg (a partir de 25 min. e 20 seg. de reprodução).